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sábado, 12 de abril de 2014

A união da comida e do vinho!


Nada é tão espetacular quanto ao momento em que nossos sentidos percebem, na boca, que determinado “bom” vinho está sendo a companhia ideal para determinado “bom” prato. A união dos prazeres conferidos por um e outro é maior do que a simples soma das sensações – transforma-se numa nova emoção!

Na harmonização entre comida e vinho, não há regras! Talvez princípios! Mas inovar é sempre interessante!

Alguns destes princípios diz respeito ao gosto de cada pessoa! Algo muito particular! Coma e beba aquilo que te deixa feliz!

As harmonizações regionais sempre devem ser respeitadas, afinal o prato e o vinho de uma determinada região estão juntos há muito tempo, e alguma razão bem saborosa deve existir!

Cada prato e cada vinho se destacam por seus sabores básicos. A identificação dos sabores é principalmente uma função da língua, embora outras regiões, como a faringe e o palato, tenham alguma sensibilidade. Na superfície da língua, existem inúmeros papilas gustativas, cujas células sensoriais percebem os quatros sabores básicos – ácido, amargo, salgado e doce. Eles são sentidos em toda a superfície da língua, mas, para efeito didático, podemos considerar uma concentração conforme a figura abaixo:


ÁCIDO

É detectado nas laterais da língua, sendo elemento comum do vinho e da comida. Os ácidos naturais conferem acidez ou azedume à comida ou ao vinho. A acidez provoca a sensação de refrescância, sendo um meio condutor de aromas. Um bom indicativo de acidez de um vinho é o seu brilho: quanto mais brilhante o vinho, maior a acidez.

AMARGO

Corresponde a uma sensação de ausência de doçura, que se percebe ao engolir tanto o vinho como a comida. É comum em alguns vegetais (como endívia e rúcula), ervas, condimentos e comida tostada. O exemplo clássico é o chá preto. O amargo aparece em muitas comidas durante o cozimento, especialmente em altas temperaturas. Isso também ocorre quando, em vez de dar uma ligeira infusão em um chá, nós o deixamos ferver. O amargor é percebido especialmente na parte de trás da língua.

SALGADO

Não é perceptível em todos os vinhos, somente em alguns brancos com grande mineralidade, mas na comida é elemento importante, porque realça os outros sabores básicos. Algumas pessoas colocam um pouco de sal em frutas ácidas (manga verde ou laranja) para torna-las mais suaves ao paladar. A sensação de salgado aparece mais no centro da língua.

DOCE

A maioria das pessoas detecta-o na ponta da língua. É encontrado em muitas comidas e vinhos em diferentes níveis. Frequentemente, legumes e, com certeza, frutas podem acrescentar um grau de doçura à comida. O sabor doce é notado também nos componentes aromáticos frutados dos vinhos, nos aromas de tostado da madeira e no álcool. Nossas expectativas individuais determinam a conveniência dos níveis de doçura.

COMPONENTES E TEXTURAS

As comidas e os vinhos apresentam uma gama variada de componentes e texturas cujo conhecimento é decisivo para a harmonização. Pratos e bebidas podem ter tendência à acidez, à doçura, ao amargor.

Alimentos podem, além disso, ser menos ou mais salgados. A textura leva em conta os componentes gustativos, como gordura, suculência e intensidade do sabor. Um ossobuco sobre risoto de açafrão ficará bem na presença de um tinto jovem do Novo Mundo, com bom corpo. Nesse prato, que costuma ter bastante tempero e é rico em gorduras, os taninos do vinho vão se envolver com a untuosidade da comida e parecer mais macios.

E como se comportam os elementos relacionados aos componentes dos alimentos e do vinho?

ACIDEZ

A acidez, sensação picante que nos faz salivar, está presente tanto nos alimentos quanto nos brancos e tintos. Por isso, um vinho aparentemente demasiado ácido para se beber sozinho pode trabalhar muito bem em conjunto com a comida. Ao procurar uma combinação agradável para um prato rico, salgado, gorduroso ou com um pouco de especiarias, um vinho com boa acidez será eficaz e refrescante. É o que poderia se chamar de regra do “toque do limão”. Uma espremida de limão pode acentuar a riqueza de um prato ou cortar o excesso de sal de outro (por exemplo, controlar a salmoura dos frutos do mar). Um vinho com boa acidez pode cumprir o mesmo papel. Também harmoniza bem com pratos com molhos à base de creme de leite ou manteiga, com peixes oleosos ou de sabor forte, com crustáceos e com qualquer tipo de fritura por imersão.




Vinhos com boa acidez sãos os melhores para harmonizar com pratos ácidos. Um Sauvignon Blanc é ideal para salada de frutas do mar. Ingredientes ácidos como o tomate, a alcaparra e o alho-poró harmonizam melhor com vinhos que tenham acidez semelhante. Um vinho com menor acidez que a do prato parecerá sem corpo, magro, e desaparecerá. Portanto, quando servir o vinho com pratos ou ingredientes ácidos, procure oferecer um vinho mais ácido!


“A acidez traz à tona a integridade de ingredientes simples e bons”

Comparamos a acidez de um vinho a uma caneta marca-texto. Uma passada da caneta marca-texto faz o trecho grifado se destacar na página. A acidez do vinho pode provocar o mesmo efeito com a comida, destacando a essência do aroma de algum ingrediente. O milho, o tomate maduro, os crustáceos e a mozarela fresca ganham uma nova dimensão quando harmonizados com um vinho ácido e descomplicado, que faz aromas vibrantes e deliciosos saltarem desses alimentos.


DOÇURA

Vinhos têm diferentes níveis de açúcar, podendo ser levemente doces ou meio-secos. Normalmente, achamos traços de doçura em Rieslings, Chenin Blancs, Gewürztraminers, Muscats leves e em alguns estilos de espumantes.


“A doçura é um bom contrapeso para moderar especiarias”

Muitas receitas asiáticas, como o picante churrasco de frango coreano ou o porco chinês de duas cocções, não precisam ser acompanhados exclusivamente de cerveja. Nesses casos, um vinho com baixo a médio teor de açúcar trará um bom contraste e domará a ferocidade do calor gerado pelo uso de especiarias, até mesmo aliviando a sensação de queimação causada pela pimenta.

“A doçura do vinho pode complementar a leve doçura da comida”

É o caso de vinhos levemente adocicados com pratos acompanhados de chutneys, molhos feitos com frutas frescas ou secas (reidratadas); o aroma das frutas ressoa bem com a maioria desses vinhos.


“Doçura pode ser eficaz no contraste com sal”

Essa é a regra por trás da harmonização do vinho doce francês Sauternes com roquefort, ou outro queijo azul, e do vinho do Porto Vintage com stilton. No entanto, esse gênero de harmonização requer experimentações, já que nem todas as combinações são boas.


“Vinhos de sobremesa devem ser mais doces que a sobremesa”

O conteúdo dessa regra é óbvio para quem já foi a um casamento e teve a infeliz experiência de provar um caro Champagne Brut com um pedaço de bolo, cheio de creme de manteiga. O Champagne subitamente se transformará em uma água com gás azeda. No mínimo, os níveis de doçura do vinho e da sobremesa devem se equiparar. Também sobremesas à base de frutas são mais compatíveis com os vinhos de sobremesa. Evite cremes de manteiga muito doces e espessos com espumantes.


SALGADO

Assim como para a saúde das pessoas, o sal na harmonização de vinho e comida é importante e necessário em pequenas quantidades. De maneira análoga à dos médicos, que pedem para se prestar atenção ao consumo de sódio, à mesa você precisa estar atento à quantidade de sal nos pratos e como isso afetará a escolha do vinho. Para melhor aproveitamento do vinho, o gosto salgado deve ser reduzido e não ampliado.

“O salgado é atenuado pela acidez do vinho”

Vinhos brancos e espumantes, como regra, são naturalmente mais ácidos e, portanto, combinam melhor com pratos salgados que qualquer tinto. Por exemplo, a acidez de um Pinot Grigio jovem é um contraste refrescante para uma lula empanada ou um peixe assado em crosta de sal.


“A percepção do sal é aumentada pelo tanino”

O tanino é a substância que dá o sabor amargo e a textura adstringente ao tinto. O tanino vai, normalmente, acentuar o excesso de sal, resultando numa harmonização tão charmosa quanto chupar uma pedra de sal, especialmente quando se está servindo um vinho tinto encorpado e rico em taninos. Por isso, não é qualquer tinto que combina bem com o bacalhau – embora em Portugal seja essa a preferência. Tintos macios e brancos amadeirados costumam fazer boa companhia ao peixe salgado, tão apreciado lá como aqui no Brasil.


“O álcool é acentuado pelo sal”

A forte presença de sal na comida fará com que o vinho pareça ter mais teor alcoólico (ser mais quente) que na realidade. É importante tomar conhecimento disso, pois você não gostaria que o vinho escolhido para harmonizar com o prato se assemelhasse a uma vodka. Grande quantidade de especiarias também tornará o vinho mais quente; beber um vinho tinto encorpado com um chilli é o caminho certo para uma azia.


“Pratos salgados podem ser contrabalançados por vinhos meio-secos ou doces”

O salgado e o doce juntos são como mágica. Embora nem todas as pessoas pensem dessa forma, há vários exemplos: torta de peixe tailandesa com molho agridoce apimentado, presunto com mostarda e fast-foods salgados com ketchup harmonizam com vinhos doces ou meio-secos; se a combinação ficar apagada, tente colocar uma pitada de sal no prato. Ocasionalmente, essa adição de sal poderá reavivar a presença do vinho.


AMARGOR

Alguns alimentos, como certos vegetais, apresentam amargor ao serem provados. Com determinados vinhos, especialmente os tintos, acontece a mesma coisa. Às vezes, é um pequeno travo típico, que não chega a incomodar. Há casos, entretanto, que o amargor, no meio da boca ou no final, é bastante perceptivo, e não é exatamente uma qualidade da bebida.

“O excesso de madeira não faz bem ao vinho”

Nos tintos, o traço desagradável é provocado principalmente pela vinificação de uvas que não atingiram sua plena maturação fenólica ou pelo excesso de madeira. Para haver equilíbrio, o repouso nas barricas de carvalho deve ser proporcional à concentração de fruta e à estrutura desejada. A madeira em demasia passas taninos indesejados ao vinho. O tanino é elemento importante na composição dos tintos, desde que maduro.

“Carnes vermelhas ajudam a domar os taninos”

Há tintos menos e mais taninosos. Do ponto de vista da química, eles se ligam às proteínas. Por isso, acomodam-se muito agradavelmente às carnes vermelhas, aos molhos ricos e aos queijos de pasta dura. Tomados sozinhos, ou com um alimento leve, pobre em proteínas, os taninos vão buscar liga em outro lugar. Sabe onde? Nas proteínas da saliva, que perde assim suas propriedades lubrificantes, provocando aquela sensação adstringente, que amarra a boca como uma fruta verde.




Bem, depois de conhecermos os princípios básicos para uma boa relação entre a comida e o vinho, avançaremos para outros conceitos num segundo artigo!

Adelante!





sábado, 29 de março de 2014

Harmonizando Vinhos e Frutas



Num primeiro momento, soa estranho buscar uma harmonização como essa! Mas, se observarmos as características de algumas frutas e vinhos, encontraremos muitas semelhanças entre os seus componentes, como acidez, doçura, texturas. É importante definir qual o Universo dos vinhos queremos trabalhar! Vinhos com acidez e doçura!


A cepa Gewürztraminer produz brancos ricos, de cor amarelo-ouro e aromas intensos e perfumados (rosas e jasmim), frutados (lichia, maracujá, maçã e peras maduras), com especiarias marcantes (canela, cravo, nós-moscada).

Escolhi para esta harmonização um vinho da África do Sul, Robertson Winery Gewürztraminer Late Harvest, safra 2011. Este Gewürztraminer é rico e denso, com notas florais típicas desta uva de grande personalidade. Para deixar o vinho ainda mais interessante, uma parcela de uvas botritizadas foi adicionada, conferindo ao vinho cativantes notas de mel e um interessante toque frutado no palato. Resumidamente, um vinho com boa acidez e doçura!


Comecei a harmonização com as nozes! Nozes possuem um certo amargor, textura e untuosidade, deixando a língua com uma leve camada de mousse. A harmonização é muito rica, pois a acidez do vinho funcionou como um detergente, deixando a língua com uma sensação de limpeza. A doçura se pronunciou e os aromas ficaram mais claros! Em seguida, uma seleta de frutas secas e desidratadas, castanha, amendoim, passas, amêndoas, macadamia foram usadas! A característica principal está na doçura, seguida pela acidez! A doçura do vinho se pronunciou tornando-o um delicioso mel. Fantástico! Esta seleta de frutas secas já ganhou um destaque! Terminei este primeiro estágio com um damasco desidratado! Uma fruta que todos adoram, possui uma excelente acidez e uma doçura marcante! A acidez foi enriquecida, trazendo uma gostosa sensação de frescor! Muito interessante também! As três harmonizações estão aprovadas.




Resolvi buscar uma harmonização com uma fruta mais acida, e também exótica! Escolhi a Fisales. Uma fruta com sabores marcantes, um pouco amarga, ácida e de pouco açúcar! Foi muito forte para a Gewürztraminer! Interessante observar isso, as vezes, escolhemos acompanhamentos para os nossos vinhos que simplesmente fazem o vinho sumir!




O caqui é uma fruta doce, imagina o caqui chocolate, maduro, sem taninos que provocam aquela sensação de secura na boca! O vinho encontrou seu paraíso! A untuosidade do caqui foi limpada pela acidez, os açucares se somaram e algo refrescante tomou conta da boca! Minha dica é uma harmonização desta após um almoço cujo prato principal tenha sido uma massa com molho vermelho! Excelente!


O Kiwi é uma fruta muito apreciada pelos seus sabores cítricos, com uma acidez alta e doçura picante! Vamos chegar a uma conclusão muito interessante, nosso vinho não aguenta alimentos com alta acidez, como o Kiwi. Toda a acidez do vinho foi sobrepujada pela acidez da fruta, sobrando somente o amargor! Não houve equilíbrio entre os alimentos, ou seja, a harmonização não existe! Harmonização é equilíbrio e soma!




A goiaba possui uma polpa muito suculenta, doce e aromática! Uma acidez mediana, mais pronunciada na casca que também contém um certo amargor e taninos. Se comermos a goiaba com casca, a acidez total será maior que o vinho, e os taninos e o amargor tomarão conta do palato! Mas se retirarmos toda a casca da goiaba, temos uma harmonização perfeita entre o vinho e a fruta!


É importante frisarmos que estamos descobrindo vários detalhes sobre acidez, amargor, álcool, doçura e taninos! Correto?


Parti para uma pêra madura, com uma deliciosa polpa branca, cheia de doçura, pouca acidez e quase nenhum amargor! O vinho harmonizou perfeitamente trazendo aquela sensação gostosa de mel para o palato! Podemos concluir que frutas de polpa generosa harmonizam muito bem com este vinho! Para comprovarmos esta tese, vamos partir para a nossa última fruta, rica em polpa e doçura!




Uma suculenta manga, com toda a doçura da sua polpa, acidez mediana para baixa, harmonizou perfeitamente com o vinho, trazendo uma sensação refrescante a cada gole! Uma combinação perfeita para um fim de tarde na praia, na piscina, ou na varanda do apartamento! O importante é sentir o frescor desta harmonia.


Concluo que as frutas podem ser excelentes parceiras para os vinhos, mas alguns detalhes precisam ser observados como, por exemplo, os taninos que na sua totalidade estão nas cascas, o amargor da fruta utilizada e, principalmente, a acidez! Se a fruta possuir uma acidez muito superior à acidez do vinho, é muito provável que a sensação de amargor tome conta do palato!




Adelante!